O que a ciência sabe sobre evitação, enfrentamento e tolerância ao desconforto.
- giuliarussoc
- há 13 horas
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Há uma diferença importante entre reduzir um desconforto e resolver aquilo que o produz. Diante de situações que provocam medo, ansiedade, insegurança, vergonha ou outras experiências aversivas, se afastar pode produzir uma consequência imediata bastante convincente, o alívio. Esse efeito ajuda a explicar por que a evitação pode se tornar uma estratégia tão persistente. O problema surge quando aquilo que funciona para reduzir o desconforto no curto prazo passa a impedir que o indivíduo desenvolva novas formas de responder à situação no longo prazo. A literatura científica sobre aprendizagem, exposição, regulação emocional, tolerância ao desconforto e flexibilidade psicológica oferece diferentes perspectivas para compreender essa dinâmica. Em conjunto, essas pesquisas não autorizam uma conclusão simplista de que “evitar é sempre ruim” ou de que todo problema deve ser confrontado diretamente. Existem situações em que se afastar é prudente, protetivo ou necessário. O que os estudos permitem discutir com maior segurança é o custo da evitação persistente de situações relativamente seguras ou inevitáveis quando ela passa a funcionar como principal estratégia para não experimentar desconforto. Nesse cenário, evitar pode deixar de ser apenas uma resposta momentânea e começar a organizar o comportamento.
Para compreender esse processo, é necessário abandonar a ideia de que enfrentar significa simplesmente ter coragem. Do ponto de vista comportamental, a evitação possui uma função compreensível que é afastar-se de uma situação aversiva, o que pode produzir alívio. Se determinada ação reduz rapidamente uma experiência desagradável, existe uma razão para que ela volte a ocorrer no futuro. O indivíduo não precisa conscientemente decidir transformar a fuga em estratégia, basta aprender, pela própria experiência, que evitar funciona para diminuir o desconforto naquele momento. O problema é que essa aprendizagem pode ter um efeito secundário. Ao evitar repetidamente, a pessoa reduz as oportunidades de descobrir o que aconteceria caso permanecesse na situação, quais consequências realmente ocorreriam e quais recursos teria para lidar com elas. É nesse ponto que a literatura sobre exposição se torna particularmente relevante. A exposição contemporânea não é compreendida apenas como permanecer diante de algo até parar de sentir medo. Modelos baseados em aprendizagem inibitória enfatizam a possibilidade de construir novas associações e expectativas a partir do contato com a situação temida. O objetivo não é necessariamente apagar uma aprendizagem anterior, mas desenvolver aprendizagens capazes de competir com ela.
Essa diferença é fundamental porque modifica a própria compreensão do enfrentamento. Se o objetivo fosse simplesmente esperar a emoção desaparecer, agir dependeria de uma condição emocional anterior: primeiro sentir segurança, depois enfrentar. Parte da literatura sugere uma lógica diferente. Em determinadas circunstâncias, novas aprendizagens são produzidas justamente durante o contato com aquilo que antes era evitado. Isso significa que uma pessoa pode entrar em uma situação ainda experimentando desconforto e, a partir dessa experiência, atualizar expectativas, testar previsões e descobrir capacidades que a evitação não permitia verificar. Consequentemente, a ausência de medo não precisa ser tomada como condição necessária para agir. Mais importante pode ser aprender que determinada emoção é tolerável, que uma previsão temida nem sempre se concretiza da maneira esperada ou que, mesmo quando algum desconforto ocorre, existem recursos para lidar com ele. Craske e colaboradores chamam atenção precisamente para essa mudança de perspectiva ao diferenciar a aprendizagem inibitória de modelos centrados exclusivamente na habituação do medo.
Esse raciocínio também ajuda a compreender por que comportamentos de segurança e evitação merecem atenção. Treanor e Barry analisaram a evitação a partir de teorias modernas da aprendizagem e destacaram que comportamentos de evitação podem persistir mesmo depois de processos de exposição ou extinção, e a própria disponibilidade de uma possibilidade de fuga pode contribuir para o retorno do medo em determinadas condições. Isso não significa que qualquer comportamento protetivo deva ser eliminado, mas demonstra que evitar possui efeitos sobre aquilo que o organismo consegue aprender. Quando uma pessoa sempre escapa antes de descobrir o que aconteceria se permanecesse, determinadas expectativas podem permanecer praticamente intocadas.
Há também uma dimensão mais ampla do problema, relacionada à regulação emocional. Aldao, Nolen-Hoeksema e Schweizer publicaram em 2010 uma meta-análise que reuniu 241 tamanhos de efeito provenientes de 114 estudos e examinou seis estratégias de regulação emocional, sendo aceitação, evitação, resolução de problemas, reavaliação, ruminação e supressão, em relação a sintomas de ansiedade, depressão, transtornos alimentares e problemas relacionados a substâncias. Os resultados mostraram associações de magnitudes diferentes entre estratégias regulatórias e psicopatologia, com efeitos particularmente relevantes para ruminação, evitação, resolução de problemas e supressão.
O achado não deve ser interpretado como prova de que uma estratégia isoladamente causa um transtorno, mas sustenta que a maneira habitual como uma pessoa responde às próprias experiências emocionais está relacionada ao seu funcionamento psicológico.
Essa discussão evoluiu ainda mais com a literatura contemporânea sobre flexibilidade na regulação emocional. Em uma revisão publicada na Nature Reviews Psychology, Lincoln, Schulze e Renneberg analisaram modelos teóricos, evidências associando dificuldades regulatórias a diferentes transtornos, estudos longitudinais e intervenções clínicas. Um dos pontos importantes dessa literatura é justamente evitar a divisão entre estratégias universalmente “boas” e universalmente “ruins”. O contexto importa. Isso também estabelece um limite importante para qualquer aplicação popular da ideia de enfrentamento, psicologia baseada em evidências não significa recomendar confronto indiscriminado. Significa compreender quando a evitação está protegendo o indivíduo e quando passou a restringir desnecessariamente suas possibilidades de ação.
Outro conceito útil para compreender por que algumas pessoas conseguem permanecer diante de experiências difíceis enquanto outras organizam grande parte de seu comportamento para escapar delas é a tolerância ao desconforto (distress tolerance). Zvolensky, Vujanovic, Bernstein e Leyro discutem o construto como relacionado à capacidade percebida ou efetiva de suportar estados internos negativos. A importância desse conceito está em separar duas coisas que são frequentemente confundidas, experimentar sofrimento e ser incapaz de permanecer diante dele. Uma emoção pode ser desagradável sem ser necessariamente intolerável. Quando o indivíduo interpreta determinados estados internos como impossíveis de suportar, escapar deles pode ganhar prioridade sobre objetivos de longo prazo. Assim, desenvolver tolerância não significa desejar sofrimento ou permanecer passivamente em circunstâncias nocivas, mas sim aumentar a capacidade de experimentar estados internos difíceis sem precisar responder automaticamente por fuga ou esquiva.
A flexibilidade psicológica amplia essa ideia. Em 2024, Macri e Rogge publicaram uma revisão sistemática e meta-analítica sobre processos de flexibilidade e inflexibilidade psicológica em intervenções baseadas em Terapia de Aceitação e Compromisso. Os resultados indicaram que intervenções de ACT aumentaram diferentes dimensões de flexibilidade psicológica, reduziram dimensões de inflexibilidade e diminuíram sofrimento psicológico em comparação com condições de espera ou outros tratamentos, mudanças nesses processos também estiveram relacionadas a mudanças no sofrimento. O interesse desses achados para a discussão presente está na possibilidade de uma pessoa agir de maneira orientada por objetivos e valores mesmo na presença de experiências internas desagradáveis.
Uma evidência complementar aparece na meta-análise de Littleton e colaboradores sobre estratégias de coping após experiências traumáticas. Os pesquisadores analisaram 39 estudos envolvendo violência interpessoal e lesões graves e encontraram associação consistente entre coping baseado em evitação e maior sofrimento psicológico, com correlação global de r = 0,37. Entretanto, estratégias de aproximação não apresentaram simplesmente a associação inversa de maneira geral, e moderadores foram identificados. Esse resultado impede uma conclusão superficial de que “se evitar faz mal, enfrentar necessariamente faz bem”. Não é isso que os dados mostram. O que eles reforçam é que padrões evitativos merecem atenção, enquanto a qualidade, o contexto e a forma do enfrentamento continuam sendo fundamentais.
Esses estudos ajudam também a compreender por que o enfrentamento precisa envolver recursos psicológicos, e não apenas disposição para agir. Permanecer diante de uma experiência difícil exige algum grau de regulação emocional, tolerância ao desconforto e flexibilidade. Dependendo da situação, pode exigir ainda planejamento, suporte social e condições concretas para lidar com consequências. Portanto, a ideia de enfrentar não deve ser confundida com exposição irresponsável ou impulsividade. Há uma diferença entre aproximar-se estrategicamente de algo que vem sendo evitado e simplesmente se lançar contra uma situação para provar força. A literatura examinada favorece muito mais a primeira interpretação.
Tomados em conjunto, a evitação possui utilidade e pode ser adaptativa em diversos contextos, mas, quando utilizada de maneira persistente para escapar de experiências internas desagradáveis ou de situações relativamente seguras que precisam ser enfrentadas, pode restringir novas aprendizagens e se associar a maior sofrimento psicológico. A exposição, por sua vez, oferece condições para que novas relações sejam aprendidas, a tolerância ao desconforto permite permanecer diante de experiências aversivas sem necessariamente fugir delas, a flexibilidade psicológica amplia a possibilidade de escolher comportamentos que não sejam rigidamente determinados pelo estado emocional do momento e estratégias mais amplas de regulação ajudam o indivíduo a administrar aquilo que sente durante o processo. Muitas vezes, o indivíduo acredita que precisa primeiro modificar aquilo que sente para depois modificar aquilo que faz. Precisa sentir confiança para agir, deixar de sentir medo para enfrentar, eliminar a insegurança para decidir ou alcançar determinado estado emocional antes de entrar em contato com uma situação difícil. A literatura revisada mostra por que essa ordem nem sempre corresponde ao modo como a aprendizagem acontece. Em determinadas situações, é precisamente a experiência comportamental que fornece as condições para uma mudança posterior: ao permanecer, testar expectativas, tolerar sensações e perceber as próprias respostas, o indivíduo produz informações que não poderiam ser obtidas enquanto permanecesse evitando. Portanto, agir não é apenas consequência de uma mudança psicológica, a própria ação pode participar da produção dessa mudança.
Referências Bibliográficas
Craske, M. G., Treanor, M., Conway, C. C., Zbozinek, T. & Vervliet, B. (2014). Maximizing exposure therapy: An inhibitory learning approach. Behaviour Research and Therapy, 58, 10–23.
Treanor, M. & Barry, T. J. (2017). Treatment of avoidance behavior as an adjunct to exposure therapy: Insights from modern learning theory. Behaviour Research and Therapy, 96, 30–36.
Aldao, A., Nolen-Hoeksema, S. & Schweizer, S. (2010). Emotion-regulation strategies across psychopathology: A meta-analytic review. Clinical Psychology Review, 30(2), 217–237.
Zvolensky, M. J., Vujanovic, A. A., Bernstein, A. & Leyro, T. M. (2010). Distress Tolerance: Theory, Measurement, and Relations to Psychopathology. Current Directions in Psychological Science, 19(6), 406–410.
Lincoln, T. M., Schulze, L. & Renneberg, B. (2022). The role of emotion regulation in the characterization, development and treatment of psychopathology. Nature Reviews Psychology, 1, 272–286.
Macri, J. A. & Rogge, R. D. (2024). Examining domains of psychological flexibility and inflexibility as treatment mechanisms in acceptance and commitment therapy: A comprehensive systematic and meta-analytic review. Clinical Psychology Review, 110, 102432.
Littleton, H., Horsley, S., John, S. & Nelson, D. V. (2007). Trauma coping strategies and psychological distress: A meta-analysis. Journal of Traumatic Stress, 20(6), 977–988.

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