Você não regula suas emoções só porque sente menos estresse
Diante de uma situação de pressão, duas pessoas podem permanecer aparentemente calmas por razões completamente diferentes. Uma pode perceber a ameaça, experimentar a ativação emocional e conseguir regular sua resposta. Outra pode simplesmente apresentar menor reatividade diante daquele estímulo.
Externamente, o resultado pode parecer semelhante. Psicologicamente, não necessariamente é.
Publicado em 2026 no International Journal of Psychophysiology, o estudo de Adam O'Riordan, Tyler L. Minnigh e Aisling M. Costello investigou a associação entre os traços da Tríade Sombria, narcisismo, psicopatia e maquiavelismo, e as respostas psicológicas e cardiovasculares diante de estresse agudo.
Participaram do experimento 139 universitários, com idades entre 18 e 26 anos. Primeiro, os pesquisadores estabeleceram uma linha de base cardiovascular. Em seguida, os participantes foram submetidos a uma tarefa de aritmética mental acompanhada de avaliação social, criando uma situação experimental de estresse psicológico.
Durante o protocolo foram avaliadas medidas cardiovasculares, incluindo pressão arterial sistólica, pressão arterial diastólica, pressão arterial média e frequência cardíaca. Os participantes também relataram subjetivamente seus níveis de estresse e ansiedade.
A manipulação funcionou. A situação experimental produziu aumento significativo das medidas cardiovasculares avaliadas, indicando que o estímulo utilizado foi capaz de provocar uma resposta fisiológica de estresse. A diferença apareceu quando os pesquisadores analisaram essa resposta em relação aos traços da Tríade Sombria.
Indivíduos com maiores níveis de narcisismo relataram menor ansiedade após a exposição ao estressor e apresentaram menor reatividade da pressão arterial sistólica e da pressão arterial média. Já níveis mais elevados de psicopatia estiveram associados a menor estresse subjetivamente relatado e a uma resposta menos acentuada da frequência cardíaca. O maquiavelismo, por outro lado, não apresentou associação significativa com as respostas psicológicas ou cardiovasculares avaliadas.
À primeira vista, esses resultados poderiam produzir uma interpretação de que pessoas com determinados níveis de narcisismo ou psicopatia lidariam melhor com situações estressantes.
O problema está justamente no significado atribuído a “lidar melhor”.
Autorregulação emocional pressupõe que exista uma resposta a ser regulada. Uma pessoa pode identificar uma ameaça, experimentar ansiedade ou estresse e ainda assim modular o próprio comportamento de maneira funcional. Baixa reatividade é outra coisa. O organismo pode simplesmente responder com menor intensidade ao estímulo.
Portanto, apresentar menos ansiedade, menor aumento da pressão arterial ou menor alteração da frequência cardíaca não demonstra, isoladamente, maior capacidade de autorregulação.
Mas o que implica responder menos ao estresse?
O estresse não é apenas uma experiência desagradável. A resposta ao estresse participa da preparação do organismo para lidar com demandas, ameaças e consequências relevantes. Alterações cardiovasculares e autonômicas fazem parte de um sistema que aumenta prontidão e prepara o indivíduo para responder ao ambiente. Por isso, menor reatividade não deve ser automaticamente entendida como vantagem.
Em determinados contextos, responder menos intensamente pode significar menor sofrimento subjetivo diante da pressão. Uma pessoa pode permanecer funcional em situações que produziriam ansiedade intensa em outras pessoas. Isso pode favorecer desempenho quando excesso de ativação prejudicaria raciocínio, atenção ou tomada de decisão. Entretanto, a mesma característica pode produzir consequências completamente diferentes quando aquilo que deveria gerar ativação não funciona como sinal de perigo, punição ou necessidade de interromper um comportamento.
Parte da literatura sobre psicopatia encontra justamente menor responsividade fisiológica diante de estímulos aversivos e ameaçadores. Também existem evidências de dificuldades no processamento de ameaça e na aprendizagem a partir de determinadas experiências aversivas. Isso não significa que pessoas com traços psicopáticos sejam incapazes de sentir medo ou de aprender com consequências.
A implicação interessante é outra. Uma consequência negativa só consegue modificar comportamento na medida em que é processada como relevante. Se sinais de ameaça ou determinadas consequências aversivas produzem menor impacto, sua capacidade de funcionar como freio comportamental também pode ser diferente.
Nesse sentido, sentir menos estresse pode alterar a relação entre risco e comportamento.
Uma situação que produz antecipação intensa de consequências em uma pessoa pode gerar uma resposta consideravelmente menor em outra. O comportamento observado pode então parecer coragem, frieza, confiança ou autocontrole, quando parte dessa diferença pode estar acontecendo antes da regulação consciente: o próprio sinal de ameaça pode estar produzindo menos ativação.
Isso também ajuda a entender por que baixa reatividade não é sinônimo de boa regulação emocional. Uma pessoa pode apresentar pouca ativação diante de ameaça e, simultaneamente, ter dificuldades em outros componentes da regulação emocional. Uma revisão sistemática e meta-análise recente encontrou associação entre traços psicopáticos e prejuízos em diferentes capacidades de regulação emocional.
Há ainda uma consequência importante para a aprendizagem.
Grande parte do comportamento humano é modificada não apenas pela punição efetivamente recebida, mas pela antecipação dela. Aprendemos que determinadas ações produzem consequências negativas e passamos a evitá-las antes que essas consequências ocorram novamente. Quando a resposta a sinais aversivos é atenuada, esse mecanismo pode funcionar de maneira diferente.
Isso não transforma baixa reatividade em causa automática de comportamento antissocial. Tampouco significa que alguém pouco reativo ao estresse será necessariamente mais impulsivo, agressivo ou propenso ao risco. O comportamento continua dependendo da interação entre personalidade, aprendizagem, contexto, objetivos, reforçadores e história individual, mas muda aquilo que devemos perguntar ao avaliar uma pessoa.
Uma pessoa que permanece calma durante uma situação emocionalmente intensa pode estar regulando muito bem aquilo que sente. Também pode estar sentindo menos. E, se estiver sentindo menos, precisamos compreender o que deixa de exercer controle sobre seu comportamento quando ameaça, ansiedade ou punição possuem menor impacto.
Quando narcisismo, psicopatia e maquiavelismo foram inseridos simultaneamente em análises posteriores, algumas associações perderam significância. A relação entre narcisismo e reatividade da pressão arterial sistólica deixou de ser significativa, assim como a associação entre psicopatia e estresse autorrelatado. Outros efeitos permaneceram. Isso é relevante porque os três traços compartilham características entre si. Analisá-los separadamente pode fazer uma associação parecer específica de determinado traço quando parte dela pode decorrer justamente dessa variância compartilhada.
Também não estamos diante de uma demonstração de como indivíduos com esses traços responderão ao estresse em qualquer situação. A amostra foi pequena, composta por jovens universitários predominantemente saudáveis, e o estresse foi provocado em condições experimentais específicas. Os resultados identificam associações, não estabelecem que determinado traço seja a causa direta de determinada resposta fisiológica.
Ainda assim, o estudo acrescenta uma dimensão importante à compreensão das personalidades nocivas. Diferenças individuais não aparecem somente naquilo que uma pessoa pensa, relata ou faz. Elas também podem aparecer na intensidade com que seu organismo responde a determinados estímulos.
Em vez de observar alguém pouco afetado por uma situação adversa e concluir “essa pessoa controla muito bem suas emoções”, talvez seja necessário perguntar primeiro quanto dessa emoção chegou a ser produzida e quanto controle ela exerceria sobre o comportamento dessa pessoa. Porque controlar uma resposta e apresentar uma resposta menor desde o início são fenômenos diferentes. Essa diferença pode modificar não apenas aquilo que uma pessoa sente, mas aquilo que ela aprende a evitar.
Referência Bibliográfica
O'Riordan, A., Minnigh, T. L., & Costello, A. M. (2026). Examining the association between the dark triad personality traits and cardiovascular reactivity to acute psychological stress. International Journal of Psychophysiology, 226, 113420. https://doi.org/10.1016/j.ijpsycho.2026.113420


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