Medir agressividade não é o mesmo que entender agressão.
Quando um comportamento complexo é convertido em números, fatores e escores, existe o risco de tratarmos o resultado como se ele representasse diretamente aquilo que pretendemos medir.
Publicado em setembro de 2026 na revista Criminal Justice and Behavior, o estudo de Eva Aizpurua, Francisco Caravaca-Sánchez e Nancy Wolff avaliou as propriedades psicométricas da versão espanhola do Buss–Perry Aggression Questionnaire–Short Form, o BPAQ-SF, em homens e mulheres encarcerados em seis prisões da Espanha. O instrumento é uma versão reduzida de uma das medidas de autorrelato mais utilizadas para avaliação da agressividade e tradicionalmente organiza o construto em quatro dimensões: agressão física, agressão verbal, raiva e hostilidade.
Quando testado nessa população prisional, o modelo tradicional de quatro fatores apresentou resultados contraditórios. Alguns índices indicaram ajuste aceitável, enquanto índices estatísticos mais robustos apontaram ajuste inadequado. Em outras palavras, a organização teórica esperada para o instrumento não representou de maneira suficientemente consistente os dados observados nessa população.
Os pesquisadores então avaliaram uma estrutura alternativa com três fatores, combinando agressão verbal e raiva em uma única dimensão. Essa configuração apresentou maior parcimônia e melhor consistência interna para o fator combinado, com alfa de Cronbach de .80 e ômega de .82. Porém, os problemas de ajuste não desapareceram. Os próprios autores classificam as evidências encontradas como um suporte misto à versão espanhola do BPAQ-SF e alertam para limitações relacionadas ao desempenho dos itens e ao ajuste dos modelos. Essa conclusão traz para a análise comportamental e para contextos forenses sobre um instrumento conhecido não ser necessariamente um instrumento válido para qualquer população.
Aplicar uma escala e obter um escore não significa que o fenômeno tenha sido adequadamente mensurado. A validade de uma medida depende, entre outras coisas, de como seus itens se comportam naquela população e de quanto a estrutura estatística encontrada corresponde ao construto que o instrumento afirma avaliar. Em populações privadas de liberdade, a agressividade não existe isolada do contexto em que o comportamento ocorre. História individual, contingências ambientais, exposição prévia à violência, funcionamento emocional, características da situação e padrões comportamentais anteriores podem modificar tanto a manifestação da agressão quanto a maneira como o indivíduo responde a perguntas sobre ela.
Há ainda uma limitação ao próprio formato do BPAQ-SF. Trata-se de um instrumento de autorrelato. Isso significa que a informação obtida depende da percepção que o indivíduo possui sobre o próprio comportamento e daquilo que ele decide comunicar. O instrumento pode oferecer uma fonte relevante de informação, mas não equivale à observação direta do comportamento. O estudo demonstra algo metodologicamente mais interessante, onde mesmo instrumentos consolidados precisam ter suas propriedades examinadas nas populações em que serão utilizados.
Para a prática forense, quanto maior o peso de uma avaliação sobre decisões relacionadas a um indivíduo, menor deveria ser a dependência de uma única fonte de informação. Um escore pode integrar uma análise, não substituí-la.
A avaliação da agressividade ganha robustez quando resultados psicométricos são interpretados em conjunto com entrevistas, história do indivíduo, registros disponíveis, contexto, padrões comportamentais e outras fontes independentes de informação. Quando diferentes métodos convergem para uma mesma hipótese, a interpretação se torna mais defensável. Quando divergem, a divergência em si passa a ser um dado que precisa ser investigado.
Referência Bibliográfica
Aizpurua, E., Caravaca-Sánchez, F., & Wolff, N. (2026). Psychometric evaluation of the Spanish Buss–Perry Aggression Questionnaire–Short Form (BPAQ-SF) among incarcerated males and females in Spain. Criminal Justice and Behavior. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/00938548261479981


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